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Flexão verbal
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Flexão verbal básica
SUMÁRIO
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Radicais e terminações verbais

Verbos são palavras que exprimem ação, estado ou fenômeno. A flexão verbal compreende o conjunto de variações morfológicas assumidas pelos verbos conforme as exigências do enunciado.

As formas verbais variam de acordo com o aspecto, a voz, o número e o modo; variam, ademais, de acordo com a pessoa do discurso, nas formas ditas pessoais ou finitas, e de acordo com o caso, nas formas nominais. O momento temporal do ato verbal, no grego antigo, tem valor muito menor que a noção de aspecto.

O falante do português já está razoavelmente familiarizado com a riqueza de formas flexionais e com a maioria dos conceitos que envolvem a flexão verbal do português, língua indo-européia moderna. Veja-se, por exemplo, os elementos constituintes da forma verbal "falávamos":

falávamos  =  fal + á + va + mos
fal  = 
á  = 
va  = 

mos  = 
raiz (parte do radical) :: contém a noção verbal, "emitir sons articulados"
vogal temática (parte do radical) :: identifica a 1ª conjugação
desinência modo-temporal :: na 1ª conjugação, identifica o pretérito imperfeito do indicativo (ação que ocorre em passado que se prolonga)
desinência número-pessoal :: identifica a 1ª pessoa do plural

Agora, para comparação, os elementos da forma verbal grega λύομεν, "desatamos":

λύομεν  =  λύ + ø + ο + μεν
λύ  = 
ø  = 
ο  = 
μεν  = 
radical :: contém a noção verbal, "desatar", e o aspecto durativo
desinência modal :: identifica o modo indicativo
vogal de ligação -ε/ο- com o grau -ο-
desinência número-pessoal :: identifica a 1ª pessoa do plural

A noção básica da ação verbal e o aspecto estão contidos no radical; as outras noções (modo, voz, número, pessoa do discurso) são informadas, via de regra, pelas terminações.

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O tempo verbal

"Tempo verbal" é o nome que se dá à situação do processo verbal em relação ao momento temporal em que se fala. O grego antigo, assim como as outras línguas indo-européias, tem três momentos temporais:

  • presente: o ato verbal ocorre no momento em que se fala;
  • pretérito (passado): o ato verbal ocorre antes do momento em que se fala;
  • futuro: o ato verbal ocorrerá após o momento em que se fala.

Em grego, a noção de momento temporal é secundária à noção de aspecto e tem uma certa importância somente no modo indicativo e, em pequena escala, nas formas nominais do verbo; nos outros modos, predomina a noção de aspecto.

Consideremos, por exemplo, duas formas verbais da voz ativa do sistema do aoristo, cujo radical exprime a noção verbal de forma pura e abstrata, sem qualquer nuance:

-παίδευσ-α-ς   ao.ind.at.2.sg.   tu educaste
παιδεύσ-ηι-ς   ao.subj.at.2.sg.   educar, eventualmente, tu

No primeiro exemplo, a forma verbal está no modo indicativo, o modo dos fatos reais; para marcar o tempo pretérito é preciso acrescentar um prefixo especial ao radical do aoristo, o aumento (-ἐ-). Quem marca o momento temporal, portanto, é o aumento; não é o radical do aoristo, não é o modo indicativo.

No segundo exemplo, temos o modo subjuntivo, que exprime, entre outras coisas, a eventualidade; o radical do aoristo é o mesmo, mas sem o aumento. O radical dessa forma verbal é, portanto, desprovida de qualquer conotação temporal. O radical do aoristo marca o "ato de educar", o modo subjuntivo marca a "eventualidade" desse ato, e a desinência marca a pessoa do discurso, "tu". O momento temporal pode ser ontem, hoje ou amanhã...

N.b.. No português, o modo subjuntivo tem três "tempos" e a noção temporal é predominante: presente do subjuntivo, "eduques tu"; pretério imperfeito do subjuntivo, "educasses tu"; futuro do subjuntivo, "educares tu". A diferença entre o grego e o português é, como se vê, considerável.

É inadequada, conseqüentemente, a insistência da maioria das gramáticas tradicionais em atribuir aos grupos flexionais do verbo grego rótulos do tipo "subjuntivo presente" e "optativo presente", entre outros. A noção temporal praticamente não existe, em grego, fora do indicativo, e mesmo assim são necessários afixos para marcá-la.

Por essas razões, nestas sinopses o estudo das formas verbais gregas se baseia na identificação do aspecto verbal e não em categorias gramaticais ispiradas pelo latim e pelo português ("mais-que-perfeito", "imperfeito", etc.), que em nada auxiliam o estudo do grego.

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O aspecto verbal

O aspecto, a mais importante nuance do ato verbal marcada pelo radical dos verbos, se refere ao "grau de acabamento", à completitude da ação verbal. Há três aspectos básicos, o aoristo, o imperfectivo e o perfectivo:


aoristo aoristo ato verbal pontual, puro e simples, sem qualquer nuance; aspecto "zero"
imperfectivo infectum ato verbal durativo, inacabado, que teve início e ainda está em processamento
perfectivo perfectum ato verbal completo, acabado, que teve início e teve fim
N.b.. Muitas gramáticas chamam o aspecto imperfectivo de "presente" e o aspecto perfectivo de "perfeito". Nestas sinopses será evitada essa nomenclatura, pois implica confusão com o português.

O futuro é desprovido de aspecto (aspecto "zero") e constitui mero deslocamento do ato verbal para o futuro. É, portanto, aparentado ao aoristo e, apesar de não refletir propriamente um aspecto verbal, seu radical têm variações muito semelhantes às dos aspectos.

Os radicais das formas verbais marcam, portanto, a oposição entre quatro sistemas morfológicos:

  • o sistema do aoristo;
  • o sistema do imperfectivo;
  • o sistema do perfectivo;
  • o sistema do futuro.

Muitos dentre os verbos mais antigos da língua têm radicais com mais de uma raiz; verbos recentes, formados a partir da tendência natural da língua de formar uma conjugação regular a partir de uma única raiz, têm um só tipo de radical que, no entanto, pode sofrer ajustes fonéticos. Exemplos:

  φέρω παιδεύω μανθάνω
  aoristo ἐνεγκ- παιδευσ- μαθ-
  futuro οἰσ- παιδευσ- μαθησ-
  imperfectivo φερ- παιδευ- μανθαν-
  perfectivo ἐνενοχ- πεπαιδευ- μεμαθη-

Note-se que

  • φέρω [φερ-], "eu levo", tem mais de uma raiz;
  • παιδεύω [παιδευ-], "eu educo", tem uma só raiz, que não se altera;
  • μανθάνω [μαθ-], "ensinar, aprender" tem uma só raiz, que recebe certos afixos e sofre alterações fonéticas.

O reconhecimento dos radicais do verbos mais antigos depende, em geral, de consulta ao dicionário; no caso dos verbos mais recentes, regulares, os radicais são habitualmente previsíveis. Ver os paradigmas.

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A voz

A voz é a categoria gramatical que marca, em todas as línguas indo-européias, o relacionamento entre a forma verbal e o seu sujeito.

A mais antiga, historicamente, é a voz ativa, em que o processo verbal parte do sujeito. O sujeito, portanto, pratica a ação verbal, é um sujeito "emissor". Exemplos:

  • θύω, "eu realizo um sacrifício"
  • παιδεύω, "eu educo"

Posteriormente, surgiu a voz média, utilizada quando o sujeito pratica uma ação na qual ele tem interesse ou se empenha particularmente. De certa forma, o sujeito é emissor e receptor da ação verbal. Exemplos:

  • θύομαι, "eu realizo um sacrifício em meu benefício"
  • παιδεύομαι τὸν ὑόν, "eu mando educar meu filho"

Na voz passiva, que se desenvolveu posteriormente a partir da voz média, o processo verbal recai sobre o sujeito, isto é, o sujeito "sofre / recebe" a ação verbal (sujeito "receptor"). Exemplo:

  • θύονται, "eles são sacrificados"
  • παιδεύονται, "eles são instruídos"

Alguns verbos não existem em todas as vozes. Por exemplo, τρέχω, "eu corro", só existe na voz ativa; γίγνομαι, "eu me torno", só existe na voz média.

Há verbos que têm formas ativas no imperfectivo e, no futuro, só formas médias. Por exemplo: λαμβάνω, "eu pego"; λήψομαι, "eu pegarei".

A arquitetura morfológica da voz média e da voz passiva é muito regular, com poucos "acidentes fonéticos"; a arquitetura da voz ativa, por outro lado, é pouco rigorosa e diversas alterações fonéticas, mais ou menos evidentes, ocorrem.

Eis um quadro sinóptico das vozes do verbo παιδεύω, "eu educo", na 3ª pessoa do singular do modo indicativo:

  aoristo futuro imperfectivo perfectivo
  ativa ἐπαίδευσε παιδεύσει παιδεύει πεπαίδευκε
  média ἐπαιδεύσατο παιδεύσεται παιδεύεται πεπαίδευται
  passiva ἐπαιδεύθη παιδευθήσεται παιδεύεται πεπαιδεύται

Quando o radical é o do aoristo ou o do futuro, as três vozes são perfeitamente discerníveis; as vozes ativa e média se diferenciam pela desinência número-pessoal e a voz passiva utiliza o sufixo -θη- (às vezes -η-) aposto ao radical.

Quando o radical é o do imperfectivo ou do perfectivo, as formas médias e passivas são sempre iguais e por isso são chamadas de médio-passivas; nesse caso, voz média e voz passiva devem ser identificadas pelo contexto.

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Formas pessoais e impessoais do verbo

As formas da flexão verbal que marcam as pessoas do discurso (eu, tu, vós, etc.) são ditas pessoais ou finitas, pois "limitam" a noção verbal, isto é, delimitam o ato verbal na esfera de influência da pessoa ou pessoas do discurso.

As formas do infinitivo e do particípio, que expressam o ato verbal como se fosse um nome, são ditas impessoais ou nominais; fala-se também em "modo infinitivo" e "modo particípio".

O radical do verbo marca, em todas as formas verbais, o aspecto e, eventualmente, o momento temporal do ato verbal; nos sistemas do aoristo e do futuro, marca também a voz passiva.

As terminações assinalam, por sua vez, o número (singular, plural, dual), a voz (ativa, média e, fora do aoristo, a passiva) e mais as seguintes categorias gramaticais:

  • nas formas pessoais:
    modos: indicativo, imperativo, subjuntivo, optativo;
    pessoas do discurso: 1ª, 2ª, 3ª;

  • nas formas infinitivas:
    nada mais;

  • nas formas participiais:
    gêneros: masculino, feminino, neutro;
    casos: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, locativo, instrumental.

Panorama das formas verbais:


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Próxima sinopse

As formas pessoais do verbo


Arquivo 018. Criado em 01.10.2004, atualizado em 01.10.2004
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