 | Os sons do grego antigo
SUMÁRIO
Sons articulados
Para falarmos, o ar expirado tem que passar pelo órgão fonador humano, a laringe, onde ficam as cordas vocais. As cordas vibram em decorrência de estímulo nervoso proveniente do cérebro e o som, "empurrado" pela coluna de ar que atravessa a glote (abertura variável localizada entre as cordas vocais), passa pela faringe, atinge as cavidades bucal e nasal, é modificado por estruturas aí situadas e chega, por fim, ao ambiente exterior.
Aberturas e fechamentos totais ou parciais, aplicados em diferentes áreas das cavidades bucal e nasal durante a passagem da coluna de ar, produzem os diferentes sons emitidos pela fala humana. Essas áreas são os pontos de articulação da voz; por isso se diz que a fala humana é composta de "sons articulados".
Há duas grandes categorias de sons falados: vogais e consoantes. O som das vogais pode ser emitido de forma isolada; as consoantes só podem ser emitidas com o apoio de vogais. Exemplos:
- /a/ = "a" é uma vogal;
- /ga/, /ma/, /sa/ = "g", "m" e "s" são consoantes.
Vogais
Para a emissão de sons vocálicos, a coluna de ar passa livremente pela cavidade bucal, que atua como caixa de ressonância; o que se ouve, basicamente, é um som glotal, oriundo da glote. O grego antigo tinha sete vogais: -α-, -ε-, -η-, -ο-, -ω-, -ι-, -υ-.
O grau de abertura / fechamento da mandíbula e o grau de aproximação / afastamento da língua do palato duro e do palato mole ("céu da boca"), durante a passagem da coluna de ar, determinam o "grau de abertura" (ou timbre) das vogais. Em nosso caso,
- -α-, -η- e -ω- são vogais abertas;
- -ε- e -ο- são vogais fechadas.
Outra característica relevante das vogais gregas é a "quantidade", i.e., o tempo que se demora para emití-las. Uma vogal breve demorava uma unidade de tempo; uma vogal longa, duas unidades de tempo (a longa é sempre o dobro da breve). Exemplo: -ε- pronunciava-se "ê"; -η- pronunciava-se "éé". No grego, em relação à quantidade,
- -ε- e -ο são vogais breves,
- -η- e -ω são vogais longas e
- -α-, -ι- e -υ- são vogais ambíguas, i.e., podem ser breves ou longas.
Quando surge a eventual necessidade de especificar se uma vogal ambígua é longa ou breve, em geral nas gramáticas e tratados afins, marca-se a vogal com dois sinais:
- [
] = mácron (gr. μάκρον) se for "longa";
- [
] = bráquia (gr. βράχια) se for "breve".
Exemplos: -ῡ- (-υ- longo) e -ῠ- (-υ- breve).
Ditongos
São dois sons vocálicos pronunciados na mesma emissão de voz. Em grego, temos basicamente os seguintes ditongos:
- 1º elemento ("base") breve = -ᾰι- -ει- -οι- -αυ- -ευ- -ου-
- 1º elemento ("base") longo = -ᾱι- -ηι- -ηυ- -ωι-
Com o tempo, os ditongos de base longa foram desaparecendo da língua grega, notadamente a partir do século -IV; o -ι-, por exemplo, deixou de ser pronunciado. Em gramáticas mais antigas, fala-se no iota adscrito e no iota subscrito, representações gráficas desse fenômeno nos manuscritos do século XII em diante.
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ᾄδει =
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ἄιδει
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"ele/a canta"
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(edições antigas)
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(edições recentes)
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exemplo de iota subscrito
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O uso do "iota subscrito" nas edições modernas de textos gregos, apesar da forte tradição, é muito artificial e está rapidamente caindo em desuso; conseqüentemente, nestas sinopses não é usado o iota subscrito o iota é adscrito, como em ἄιδει.
No século -IV, igualmente, dois ditongos de base breve, -ει- e -ου-, começaram a simplificar-se e acabaram se tornando falsos ditongos, pronunciados respectivamente como /e/ fechado longo (= "êê") e como /o/ fechado longo (= "ôô"); mas isso praticamente não afetou a escrita.
Aspiração
Existe em grego um som oriundo diretamente da laringe, conhecido por aspiração, produzido pela passagem um tanto forçada da coluna de ar pela glote aberta. O som resultante é mais ou menos rude, áspero, semelhante ao "r" da palavra rato (rrato).
Todos os sons vocálicos no início de palavras podem ser emitidos com aspiração. Em grego, usa-se um sinal gráfico, o espírito (do latim spiritus, "sopro"), para marcar a presença ou ausência de aspiração:
- -Ἁ- ou -ἁ- = lê-se "rra" (é o -α- com espírito "rude" ou "áspero");
- -Ἀ- ou -ἀ- = lê-se "a" (é o -α com espírito "doce").
O -υ- inicial tem sempre espírito áspero: -ὑ-. Nos ditongos, o espírito recai no segundo elemento: -εἰ-.
Dentre as consoantes, o -ρ- inicial sempre leva espírito áspero: -ῥ- (= "rrato"). Algumas consoantes podem ser também "aspiradas", como se verá adiante.
Na transcrição para o português, coloca-se um "h" antes da vogal: ὅσος, hósos.
Consoantes
Os sons consonânticos são determinados pela imposição de diferentes tipos de dificuldade à passagem da coluna de ar pela cavidade bucal ou pelos lábios.
Em nosso caso, interessa agrupar as consoantes de acordo com os seguintes critérios: modo de articulação, ponto de articulação, presença de vibrações glotais e presença de ressonância da cavidade nasal, esta produzida pelo abaixamento do véu palatino (os palatos, o "céu da boca"):
- quanto ao modo de articulação
oclusivas = obstrução completa e momentânea da coluna de ar;
espirantes = fechamento parcial da cavidade bucal, com "estreitamento"
contínuo da coluna de ar;
- quanto ao ponto de articulação
labiais = na altura dos lábios;
dentais = na altura dos dentes;
velares = na altura do véu palatino (também chamadas, impropriamente,
de guturais);
líquidas = com fechamento parcial, provocado pela posição da ponta da
língua, mas a coluna de ar "escorre" pelos lados;
sibilantes = com fechamento parcial, entre a ponta da língua e a parte
da frente do palato duro (som contínuo, de atrito);
- quanto à presença de vibrações glotais
mudas = vibrações ausentes;
sonoras = vibrações presentes;
- quanto à presença ou não de aspiração
aspiradas;
- quanto à presença de ressonância nasal
nasais.
Esses critérios classificatórios não são mutuamente exclusivos e em geral as consoantes se enquandram em mais de um critério. Do ponto de vista eminentemente prático, faz-se em geral o seguinte arranjo:
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OCLUSIVAS
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ESPIRANTES
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sonoras
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surdas
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aspiradas *
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líquidas
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nasais
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sibilantes
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labiais
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β
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π
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φ
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-
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μ
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F
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dentais
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δ
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τ
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θ
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λ
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ν
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σ, ς
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guturais
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γ
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κ
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χ
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ρ
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γ **
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j, y
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As consoantes duplas, não colocadas na tabela acima, devem ser encaradas como a representação gráfica de dois sons consonânticos consecutivos:
- ζ = σδ ou δσ (pronunciava-se /zd/ ou /dz/);
- ξ = κσ;
- ψ = πσ.
(*) As consoantes aspiradas representam também dois sons sucessivos, o da consoante e o da aspiração:
φ = π ̔ (pronunciava-se prr)
θ = τ ̔ (pronunciava-se trr)
χ = κ ̔ (pronunciava-se krr)
(**) A letra -γ- antes de gutural (γ, κ, ξ ou χ) representa um som nasal. Exemplo: ἄγγελος,
mensageiro (pronunciava-se "ângueloss")
Sonantes
No idioma indo-europeu, a partir do qual o grego antigo se formou, havia seis fonemas de caráter contínuo (espirante) e sonoro que ora apareciam como segundo elemento de ditongos, ora como vogais, ora como consoantes. No grego, conservaram-se:
- duas sonantes líquidas, no papel de consoantes: -λ- e -ρ-;
- duas sonantes nasais, no papel de consoantes: -μ- e -ν-;
- o -y- (yod) e o -F- (digama ou vau), com sons de "i" e de "u", respectivamente, no papel de vogal ou de consoante.
O -y- e o -F- desapareceram do grego no início do período histórico, mas deixaram vários resquícios, entre eles os sons -ι- e -υ- no segundo
elemento dos ditongos. Devido ao seu comportamento ambígüo, o -ι- e o -υ- são freqüentemente chamados de semivogais.
As sonantes líquidas e nasais também deixaram, em algumas palavras, sinais de sua utilização como vogais.
Próxima sinopse
As duas outras sinopses de fonética,
- O acento musical do grego antigo
- Fenômenos fonéticos básicos da língua grega
ainda não estão prontas; passe, por enquanto, para a seguinte:
Arquivo 014. Criado em 22.09.2004, atualizado em 22.09.2004 |