 | O infinitivo
SUMÁRIO
O infinitivo (gr. ἀπαρέμφατον) é um substantivo verbal, ou seja, noção verbal com propriedades nominais similares às de um substantivo.
As formas infinitivas
As formas do infinitivo refletem suas características de verbo e de substantivo.
1. Características verbais
O infinitivo caracteriza-se por desinências próprias apostas ao radical dos quatro sistemas verbais (aoristo, imperfectivo, futuro e perfectivo) na voz ativa, na voz média e na voz passiva.
As desinências infinitivas não têm flexão de gênero, número, caso ou de pessoa do discurso; as formas verbais são, portanto, não-finitas (cf. Lat. in-finitas, daí o nome em português).
Há algumas diferenças desinenciais entre os verbos em -ω e os verbos em -μι:
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| SISTEMA |
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forma ativa |
forma média |
forma passiva |
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| imperfectivo |
-ω
-μι |
-ε-εν / -ειν
-ναι
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-ε-σθαι |
-ε-σθαι |
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| aoristo |
-ω
-μι |
-αι -ναι |
-σθαι |
-ναι |
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| futuro |
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-ε-εν / -ειν |
-ε-σθαι |
-ε-σθαι |
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| perfectivo |
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-ναι |
(σ)θαι |
(σ)θαι |
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Observações:
- no sistema do imperfectivo, os verbos em -ω têm a vogal de ligação -ε- entre o radical e a desinência;
- a desinência do imperfectivo infinitivo ativo é -εν; do encontro com a vogal de ligação -ε- resulta a contração -ει-: ε- + -εν > -ειν;
- no sistema do futuro, a vogal de ligação -ε- aparece tanto nos verbos em -ω como nos verbos em -μι;
- no sistema do perfectivo, verbos em oclusiva, líquida e nasal usam a desinência reduzida
-θαι nas formas médio-passivas (v.g. πέφαν-θαι, de φαίνω, "eu mostro");
- os verbos em -ω com radical em vogal têm formas contratas no imperfectivo; ver paradigmas verbais.
2. Características nominais
O infinitivo é um substantivo neutro e pode ser associado ao artigo neutro (τό), ou não.
Tradução
A concordância entre o infinitivo do português e o do grego é razoável e, com a ajuda de verbos auxiliares e locuções verbais, pode-se traduzir praticamente todas as nuances das formas gregas sem muita dificuldade.
A forma substantiva do infinitivo não impõe dificuldades: "comer é agradável", "ela cultiva o sorrir", etc.
Eis uma correspondência básica entre o grego e as formas impessoais do infinitivo português, que devem ser acomodadas ao contexto, estilo e fluência do texto traduzido:
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| SISTEMA |
formas ativa e média |
forma passiva |
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| imperfectivo |
estar educando |
tendo sido educado |
| aoristo |
educar |
ser educado |
| futuro |
vir a educar |
vir a ser educado |
| perfectivo |
estar educado |
ter estado educado |
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Convém lembrar, finalmente, que além de formas impessoais (v.g. louvar, ser louvado) semelhantes às do grego, o infinitivo português tem formas pessoais flexionadas que o grego não tem (v.g. louvar-es tu, seres louvado; louvar-des vós, serdes louvados, etc.).
Eis alguns links sobre o infinitivo português:
Sintaxe
Como substantivo, o infinitivo exprime a noção verbal de forma pura, indeterminada, abstrata, sem qualquer nuance.
Como verbo, o infinitivo grego exprime apenas as noções básicas dos quatro sistemas verbais, sem conotação temporal significativa, e pode formar o núcleo verbal de orações independentes, de orações subordinadas substantivas ou de certas expressões isoladas.
1. Propriedades nominais do infinitivo
| 1a |
Quando presente, o artigo neutro assume a forma do caso exigido pela função sintática do substantivo:
νέοις τὸ σιγᾶν κρεῖττόν τοῦ λαλεῖν.
"para os jovens, (o) silenciar é melhor do que (o) tagarelar"
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| 1b |
Como substantivo, pode ter complementos nominais:
τὸ τὴν μητέρα στέργειν τοὺς παῖδας.
"o amor da mãe por seus filhos"
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| 1c |
Pode ser complemento nominal de substantivos, advérbios e, notadamente, de adjetivos (em geral sem o artigo):
χαλεπὸν ποιεῖν.
"difícil de fazer"
δεινὸς λέγειν.
"hábil no falar"
ἄξιος τιμᾶσθαι.
"digno de ser honrado"
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| 1d |
Não é modificado por adjetivos, mas pode ser modificado por advérbios:
τὸ καλῶς ζῆν χαλεπόν.
"o bem viver é difícil"
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2. O infinitivo em frases isoladas
| 2a |
Em frases parentéticas (que funcionam como parêntese ou como oração intercalada), precedido ou não de ὡς (o "infinitivo absoluto" de algumas gramáticas):
ἀληθές γε ὡς ἔπος εἰπεῖν οὐδὲν εἰρήκασιν. (Pl.Ap. 17a)
"nada de verdadeiro, como se diz, eles falaram"
Algumas dessas expressões acabaram por se cristalizar, como por exemplo:
ἑκὼν εἶναι
"voluntariamente";
ἐμοὶ δοκεῖν
"na minha opinião"
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| 2b |
Em frases exclamativas, como desabafos, interpelações, saudações, etc.:
ἐμὲ παθεῖν τάδε. (A.Eu. 837)
sofrer isso, eu!
τὸν Ἴωνα χαίρειν. (Pl.Ion. 1)
Salve, Íon!
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| 2c |
Certas frases exclamativas têm conotação de ordem ou súplica, como no modo imperativo:
τὰς τραπέζας εἰσφέρειν. (Ar.V. 1216)
Trazer (trazei) as mesas!
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3. O infinitivo em orações
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nas orações independentes, o infinitivo pode ser o sujeito, o objeto ou complemento circunstancial
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a oração infinitiva pode igualmente ter a função de oração subordinada subjetiva, objetiva ou adverbial (orações substantivas, é claro...)
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Ocorrências mais comuns:
| 3a |
Como sujeito, o infinitivo requer predicativo no neutro singular:
αἰσχρόν ἐστι ψεύδεσθαι.
"é vergonhoso mentir"
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| 3b |
O infinitivo poder ser sujeito de certos verbos impessoais:
χρὴ βουλεύεσθαι.
"é preciso deliberar"
Entre o verbo impessoal e o infinitivo há, freqüentemente, pronomes pessoais no dativo ou acusativo:
ἔξεστί μοι τοῦτο ποιεῖν.
"é permitido a mim fazer isso"
δεῖ με τοῦτο πράττειν.
"é necessáro para mim fazer (= que eu faça) isso"
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| 3c |
O sujeito da oração infinitiva subordinada vem no acusativo quando é diferente do sujeito do verbo principal:
οἶμαί σε σοφὸν εἶναι.
"eu acho que tu és sábio"
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| 3d |
O sujeito da oração infinitiva subordinada não costuma ser expresso quando é o mesmo sujeito do verbo principal:
Ἀλέξανδρος οἴεται σοφός εἶναι.
"Alexandre julga ser (= que é) sábio."
Quando há predicativo ou aposto, ele pode vir no caso do sujeito principal (como no exemplo acima), ou no acusativo:
νῦν σοι ἔξεστιν ἀνδρὶ (ou ἄνδρα) γενέσθαι.
"agora é permitido a ti tornar-te homem"
Se o sujeito da oração infinitiva é indeterminado, o predicativo e/ou aposto, se existirem, vêm no acusativo:
ἀλλ' ἡδύ σωθέντα μεμνῆσθαι πόνων. (E.Fr. 133, de Andrômeda?)
"é doce, uma vez salvo, recordar suas penas."
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| 3e |
A oração infinitiva subordinada pode ser precedida de conjunção (μὴ, πρίν, ὥστε, etc.) e, eventualmente, de outras partículas (v.g. ἦ μὴν):
ὀμνύασι πάντες μὴ τὴν τάξιν λείψειν. (Lycurg. 1.76)
"todos juram que não vão deixar o seu posto"
N.b.. Como o juramento se aplica a um fato que ainda não ocorreu, o grego utiliza o infinitivo futuro. Note-se que, ao traduzí-lo para o português, foi necessário recorrer a uma locução verbal para exprimir a nuance.
βουλεύου πρὶν πράττειν.
"delibera antes de agir"
ὤμοσεν ἦ μὴν μή εἶναί υἱὸν ἄλλον. (And. 1.126)
"ele jurou que não tinha outro filho"
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| 3f |
Muitas vezes não há conjunção ou ela está implícita no sentido do verbo:
φησὶ ἐγκώμιον γεγραφέναι. (Isoc. 10.14)
"ele diz ter escrito (= que acabou de escrever) um encômio"
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| 3g |
Orações subordinadas finais são muitas vezes formadas por apenas um verbo no infinitivo:
Περικλῆς ἡιρέθη λέγειν. (Th. 2.34.8)
"Péricles foi escolhido para falar"
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| 3h |
A partícula ἄν pode emprestar ao infinitivo tonalidades modais semelhantes às do potencial e do irreal:
νομίζω, ὑμῶν ἔρημος ὤν, οὐχ ἂν ἱκανὸς εἶναι ἐχθρὸν ἀλέξασθαι. (X.An. 1.3.6)
"creio que, separado de vós, não estaria eu em condições de rechaçar um inimigo"
Κῦρος γε, εἰ ἐβίωσεν, ἄριστος ἂν δοκεῖ ἄρχων γενέσθαι. (X.Oec. 4.18.2)
"parece que Ciro, se tivesse vivido, teria se tornado excelente chefe"
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4. Negação do infinitivo
Quando a noção verbal relaciona-se semanticamente com o factual, com o real como por exemplo nos verbos do tipo "dizer", "pensar", "prometer" a negação é οὐ; nos demais casos, usa-se a negação μὴ:
λέγοντες οὐκ εἶναι αὐτόνομοι. (Th. 1.67)
"dizendo (eles) não serem independentes"
δοῦναι τε μὴ δοῦναι τε; (E.IA 56)
"entregar ou não entregar?"
Em geral, o tipo de partícula negativa pouco ou nada influencia a tradução do infinitivo para o português.
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Arquivo 025. Criado em 14.10.2004, atualizado em 14.10.2004 |